CONSULTA PÚBLICA No- 8, DE 12 DE DEZEMBRO DE 2011
Enviado: Ter Dez 20, 2011 2:01 pm
Diário Oficial REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
Imprensa Nacional BRASÍLIA - DF
DOU de 14/12/2011 – seção 1
Ministério da Saúde
Secretaria de Atenção à Saúde
CONSULTA PÚBLICA No- 8, DE 12 DE DEZEMBRO DE 2011
O Secretário de Atenção à Saúde torna pública, nos termos do Art. 34, inciso II, c/c Art. 59 do Decreto No- 4.176, de 28 de março de 2002, minuta de Portaria que aprova, na forma do Anexo, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuitcas - Imunossupressão no Transplante Hepático em Adulto.
O texto em apreço encontra-se disponível, também, no seguinte endereço eletrônico: www.saude.gov.br/sas. A relevância da matéria recomenda a sua ampla divulgação, a fim de que todos possam contribuir para o seu aperfeiçoamento.
As contribuições deverão estar fundamentadas em estudos clínicos de fase III realizados no Brasil ou no Exterior e meta-análises de ensaios clínicos, e ser enviadas, exclusivamente, para o seguinte endereço eletrônico pcdt.consulta2011@saude.gov.br, especificandose o número da Consulta Pública e o nome do Protocolo no título da mensagem. Os arquivos dos textos das fontes bibliográficas devem também enviados como anexos.
O Departamento de Atenção Especializada da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (DAE/SAS/MS) avaliará as proposições recebidas, elaborando a versão final consolidada do Protocolo ora apresentado.
Fica estabelecido o prazo de 40 (quarenta) dias, a contar da data de publicação desta Consulta Pública, para que sejam enviadas contribuições, devidamente fundamentadas, relativas ao citado Protocolo, para sua posterior aprovação, publicação e entrada em vigor em todo o território nacional.
HELVÉCIO MIRANDA MAGALHÃES JÚNIOR
ANEXO
PORTARIA No- XXXXX, DE 2011
O Secretário de Atenção à Saúde, no uso das atribuições,
Considerando a necessidade de se estabelecer parâmetros sobre a imunossupressão no transplante hepático em adulto no Brasil e de diretrizes nacionais para diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos indivíduos sob imunossupressão;
Considerando que os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) são resultado de consenso técnico-científico e são formulados dentro de rigorosos parâmetros de qualidade e precisão de indicação e posologia;
Considerando as sugestões dadas à Consulta Pública SAS/MS No- 8, de 12 de dezembro de 2011.
Considerando a avaliação do Departamento de Assistência Farmacêutica - DAF/SCTIE e do Departamento de Atenção Especializada - DAE/SAS, resolve:
Art. 1º - Aprovar, na forma do Anexo desta Portaria, o PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS – IMUNOSSUPRESSÃO NO TRANSPLANTE HEPÁTICO EM ADULTO.
§ 1º - O Protocolo objeto deste Artigo, que contêm o conceito geral da imunossupressão no transplante hepático em adulto, critérios de diagnóstico da rejeição, critérios de inclusão e de exclusão, tratamento e mecanismos de regulação, controle e avaliação, é de caráter nacional e deve ser utilizado pelas Secretarias de Saúde dos Estados e dos Municípios na regulação do acesso assistencial, autorização, registro e ressarcimento dos procedimentos correspondentes.
§ 2º - É obrigatória a observância desse Protocolo para fins de dispensação de medicamento nele previsto.
§ 3º - É obrigatória a cientificação do paciente, ou de seu responsável legal, dos potenciais riscos e efeitos colaterais relacionados ao uso de medicamento preconizado para o tratamento da imunossupressão no transplante hepático em adulto, o que deverá ser formalizado por meio da assinatura do respectivo Termo de Esclarecimento e Responsabilidade, conforme o modelo integrante do Protocolo.
§ 4º - Os gestores estaduais e municipais do SUS, conforme a sua competência e pactuações, deverão estruturar a rede assistencial, definir os serviços referenciais e estabelecer os fluxos para o atendimento dos indivíduos submetidos a transplante hepático em todas as etapas descritas no Anexo desta Portaria.
Art. 2º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.
HELVÉCIO MIRANDA MAGALHÃES JÚNIOR
ANEXO
PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS IMUNOSSUPRESSÃO NO TRANSPLANTE HEPÁTICO EM ADULTO
1 - METODOLOGIA DE BUSCA DA LITERATURA BUSCA NA BASE DE DADOS MEDLINE/PUBMED (acesso em 06/07/2011):
Utilizando-se os termos "Liver Transplantation"[Mesh] AND ("Drug Therapy"[Mesh] OR "Immunosuppression"[Mesh]), restringindo-se para estudos em humanos e adultos (maiores de 18 anos), utilizando-se os filtros "Meta-Analysis" e "Randomized Controlled Trial", obteve-se 192 estudos.
BUSCA NA BASE DE DADOS EMBASE (acesso em 06/07/2011):
Utilizando-se os termos 'liver transplantation'/exp AND 'drug therapy'/exp, restringindo-se para estudos em humanos, utilizando-se os filtros ([cochrane review]/lim OR [meta analysis]/lim OR [randomized controlled trial]/lim OR [systematic review]/lim), obteve-se 411 estudos. Destes, 70 estavam relacionados ao uso de imunossupressores no transplante hepático em adultos.
BUSCA NA BASE DE DADOS COCHRANE (acesso em 06/07/2011):
Utilizando-se o termo "liver transplantation", foi localizado uma revisão sistemática sobre o uso de imunossupressores no transplante hepático em adultos, na base de dados da Cochrane.
Foram preferencialmente incluídos como referências estudos randomizados e controlados. Considerou-se, da mesma forma, a metodologia e o número de pacientes envolvidos na pesquisa para a seleção dos estudos utilizados neste protocolo. Apesar de terem sido consultados, não foram incluídos, no texto final, os artigos em que a amostra fazia referência apenas a pacientes pediátricos (até 18 anos) e cujo foco principal era o tratamento de infecções pré- e pós-transplante.
Além disso, foram incluídos na revisão outros artigos e livros textos de gastroenterologia, hepatologia e transplante hepático.
2 - INTRODUÇÃO
O transplante de fígado foi o mais importante avanço no tratamento da doença hepática crônica terminal das últimas décadas.(1)
Atualmente, é considerado tratamento definitivo para pacientes com doença hepática terminal.(2-4) Além da cirrose avançada, também está indicado na insuficiência hepática aguda grave, no carcinoma hepatocelular, na síndrome de Budd-Chiari, na colangite esclerosante primária, na polineuropatia amiloidótica familiar, em algumas doenças metabólicas, entre outras. (5)
Nos primeiros anos da era dos transplantes, a rejeição do enxerto era a principal responsável pela maioria das perdas dos enxertos no pós-operatório e pela reduzida sobrevida pós-transplante de fígado. Nos últimos anos, no entanto, devido ao desenvolvimento de imunossupressores mais eficazes, tal complicação tornou-se bem menos frequente, permitindo maior sobrevida do enxerto e, consequentemente, dos pacientes.
Os medicamentos imunossupressores inibem ou reduzem a resposta do sistema imunitário aos aloantígenos do enxerto. O tratamento imunossupressor tem como objetivo prevenir ou reverter a rejeição do enxerto, alterando o menos possível a imunidade não relacionada com o enxerto. É de fundamental importância buscar o equilíbrio entre máxima eficácia em evitar a rejeição com mínima supressão do sistema imune, permitindo assim o controle contra infecções e neoplasias, evitando também a toxicidade direta dos agentes imunossupressores (nefrotoxicidade, hipertensão arterial, diabetes melito, dislipidemia e osteoporose). (6,7)
A rejeição ao enxerto envolve uma grande variedade de células: leucócitos T citotóxicas (CD8+), células T auxiliares (CD4+), macrófagos e plasmócitos. Na grande maioria dos episódios de rejeição, as células T são as principais envolvidas. Forma-se uma cascata de eventos que culmina na expansão clonal de células efetoras e de anticorpos que causam a destruição dos enxertos se a reação não for controlada adequadamente pelos imunossupressores. O processo completo que conduz à ativação do linfócito T requer sinais externos em receptores localizados na membrana das células. Ao iniciar a resposta imune os antígenos presentes no enxerto são captados e processados pelas células que apresentam os antígenos aos receptores das células T. Considera-se como primeiro sinal o reconhecimento das moléculas HLA pelo receptor da célula T. Há, então, a ativação de uma série de proteínas que, por sua vez, ativam vias bioquímicas efetoras. O segundo sinal, importante para a ativação celular completa da célula T, é reconhecido pela co-estimulação de moléculas com seus "encaixes". A coordenação dos sinais intracelulares que ocorrem após a exposição aos antígenos e a união com as moléculas coestimuladoras ainda não está completamente elucidada. Sabe-se que é necessária a ativação produzida por proteínas regulatórias (as citocinas) do tipo intereleucina 2 (IL-2). A interação da IL-2 com seu receptor estimula tanto a divisão celular (a célula T passará da fase G0 do ciclo celular para a fase ativada G1) quanto à expansão clonal das células auxiliares e citotóxicas. O terceiro sinal ocorre quando as citocinas são encaixadas nos seus receptores e passam a emitir os sinais de transdução para o núcleo das células. Esses sinais passam pela proteína conhecida como mTOR (mammalian target of rapamycin) e ativam sistemas enzimáticos importantes para a progressão das células da fase G1 para a fase S da síntese de DNA. O conhecimento dessa cascata de ativação, com a destruição celular cíclica que ela determina, e do sítio de ação dos medicamentos imunossupressores, é fundamental para a correta terapia da rejeição. (6,7)
Rejeição celular aguda pode ocorrer precocemente após o transplante, sendo mais comum nos primeiros meses após o procedimento.
No entanto, rejeição aguda pode surgir meses depois do transplante e até anos mais tarde, em geral quando há mudanças na imunossupressão.
Comparativamente aos transplantes de outros órgãos, a rejeição do enxerto hepático é rara, não sendo necessária a compatibilidade HLA havendo, inclusive, efeito protetor no caso de transplante conjugado com rim e pulmão.(8,9)
Em 2010 foram realizados, no Brasil, 1.413 transplantes de fígado, sendo 1.313 de doadores falecidos e 100 de doadores vivos. (10)
3 - CLASSIFICAÇÃO ESTATÍSTICA INTERNACIONAL DE DOENÇAS E PROBLEMAS RELACIONADOS À SAÚDE (CID-10)
- Z94.4 Fígado transplantado
4 - DIAGNÓSTICO DE REJEIÇÃO
Em pacientes transplantados hepáticos a rejeição pode ser dividida em aguda e crônica. A rejeição aguda é a forma mais comum de rejeição do enxerto sendo, na maior parte das vezes, reversível. Já a rejeição crônica é geralmente irreversível e costuma ser precedida por episódios de rejeição aguda não resolvidos com o tratamento.(11)
4.1 - REJEIÇÃO AGUDA
4.1.1 - DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Pode ocorrer em qualquer período pós-transplante, entretanto é mais comum que ocorra nas primeiras 12 semanas após o procedimento.
Geralmente o quadro costuma ser inespecífico, com desconforto abdominal e diminuição do apetite sendo que muitas vezes os pacientes são assintomáticos. Quando há manifestações clínicas, estas podem incluir icterícia, febre e dor abdominal.(12)
4.1.2 - DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
Nos primeiros dias após o transplante hepático os testes para avaliar a função do órgão costumam estar alterados em decorrência de eventos relacionados à cirurgia propriamente dita (lesões de preservação e reperfusão durante o implante). No entanto, quando há retardo na normalização dos parâmetros laboratoriais, não havendo tempo específico para estipular tal retardo, a possibilidade de rejeição aguda deve ser considerada, pois muitas vezes, a primeira manifestação de rejeição é a manutenção das alterações laboratoriais. Assim, embora não haja consenso em relação à magnitude dessas alterações, geralmente se observa elevação de gamaglutil transferase (GGT), fosfatase alcalina (FA), aminotransferases/transaminases (ALT/TGP e AST/TGO) e das bilirrubinas. Em alguns casos há leucocitose e eosinofilia. As alterações laboratoriais são de grande importância para a suspeita de rejeição, porém não são patognomônicas e devem ser interpretadas em contexto que inclui diferentes fatores (idade do receptor, condições do doador, causa da hepatopatia que motivou o transplante, tempo decorrido do procedimento, entre outros).(12)
4.1.3 - DIAGNÓSTICO HISTOLÓGICO
Alteração funcional hepática e a consequente elevação das enzimas não são específicas para o diagnóstico de rejeição aguda.
Quando outras causas de alteração funcional do enxerto, tais como alterações vasculares e da via biliar tiverem sido descartadas, recomenda-se a realização de biópsia de fígado. Não há consenso em relação à magnitude dessas elevações para indicar a biópsia, devendo ser considerado nesse contexto, entre outros fatores, o tempo decorrido do transplante. Em qualquer período após o transplante o diagnóstico de rejeição é estabelecido pela análise histológica do fígado. A biópsia hepática é o que define o diagnóstico e permite graduar sua intensidade. Suas bases foram definidas em reuniões de consenso conhecidas como "Critérios de Banff".(12) O índice Banff de atividade/intensidade da rejeição divide o processo em 3 graus (leve, moderado e grave). Nos casos de rejeição leve observa-se a presença de discreto infiltrado inflamatório com alterações limitadas a poucos espaços porta. Quando esta é moderada as alterações se estendem para a maioria dos espaços porta, e, no caso da grave, observa-se também inflamação perivenular que se estende ao parênquima e necrose de hepatócitos (12).
4.2 - REJEIÇÃO CRÔNICA
4.2.1 - DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Rejeição crônica pode ocorrer em qualquer período após o transplante, contudo é rara nos primeiros 3 meses. Na sua fase inicial pode ser assintomática ou indistinguível da rejeição aguda. O desenvolvimento da rejeição crônica é insidioso e não está associado com sinais e sintomas específicos, sendo necessário um alto grau de suspeição nas fases iniciais. Em geral, há história de pelo menos um episódio anterior de rejeição aguda. Gradativamente os pacientes tornam-se colestáticos e manifestam icterícia e prurido em graus variáveis.(13)
4.2.2 - DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
As alterações bioquímicas que ocorrem são fundamentalmente elevação das bilirrubinas e das enzimas hepáticas que caracterizam colestase (GGT e FA) com uma alteração proporcionalmente moderada das aminotransferases. Em fases mais tardias, há progressiva piora da síntese do enxerto hepático, com o prolongamento do tempo de protrombina, redução da albumina sérica e do Fator V. (13)
4.2.3 - DIAGNÓSTICO HISTOPATOLÓGICO
O diagnóstico de rejeição crônica requer a realização de biópsia hepática. Recomenda-se sua realização nos casos em que há elevação sustentada de enzimas hepáticas, não havendo regra de tempo para tal elevação sustentada, após ter sido afastado outras causas para tais alterações (doenças da via biliar, por exemplo). Não há consenso em relação à magnitude dessas elevações para indicar a biópsia. O achado mais característico de rejeição crônica é a ductopenia, revelada pela ausência de ductos biliares em, pelo menos, 50% dos espaços-porta. Cabe aqui ressaltar que as alterações histológicas clássicas podem não estar presentes precocemente.(14)
5 - CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Serão incluídos neste protocolo todos os pacientes adultos (maiores de 18 anos) submetidos ao transplante hepático, conforme o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes vigente.
6 - CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Intolerância, hipersensibilidade ou contra indicação serão os critérios de exclusão ao uso do respectivo medicamento preconizado neste Protocolo.
7 - TRATAMENTO
Os agentes imunossupressores inibem ou diminuem a resposta do sistema imunológico aos aloantígenos do enxerto. Os diversos medicamentos e agentes biológicos utilizados na imunossupressão do paciente transplantado de fígado se classificam em grupos, de acordo com seus sítios de atuação na cascata das células T: 1) os que atuam em vários níveis da cascata (corticoesteroides): PREDNISONA, PREDNISOLONA E METILPREDNISOLONA; 2) os que inibem a síntese de interleucina-2 (inibidores da calcineurina): CICLOSPORINA E TACROLIMO; 3) os que interferem na síntese de ácidos nucléicos (inibidores da síntese de purinas): AZATIOPRINA E MICOFENOLATO. (6,7)
A escolha do esquema imunossupressor a ser utilizado deve levar em consideração aspectos relacionados ao receptor (comorbidades, doença hepática que levou ao transplante, etc.). A maioria dos esquemas imunossupressores combina agentes com diferentes sítios de ação na cascata da resposta imunológica, permitindo ajuste nas doses e reduzindo assim os efeitos adversos e a toxicidade desses medicamentos. Como há efeito sinérgico entre alguns desses agentes, é possível utilizar, em distintas combinações, medicamentos que atuem em diferentes fases do ciclo celular, com a intenção de atingir um nível adequado de imunossupressão, com menos efeitos adversos.
O termo TERAPIA DE INDUÇÃO OU INICIAL refere-se ao tratamento imunossupressor utilizado no período trans-operatório e durante os três primeiros meses pós-transplante, período em que o risco de rejeição do enxerto é maior. O termo TERAPIA DE MANUTENÇÃO refere-se ao esquema imunossupressor utilizado posteriormente a este período. Atualmente, na grande maioria dos casos são utilizados esquemas imunossupressores tendo como base os inibidores da calcineurina.
CORTICOESTEROIDES (PREDNISONA E METILPREDNISOLONA)
Os corticoesteroides são os imunossupressores mais amplamente utilizados no transplante hepático excetuando os inibidores da calcineurina. Esses agentes são utilizados desde o início da era do transplante hepático e ainda hoje fazem parte da primeira linha de tratamento da rejeição aguda e em pacientes transplantados por hepatite autoimune.
Estes medicamentos atuam principalmente na ativação das células T, inibindo a produção de citocinas, tais como a interleucina-2 e interleucina-6 e interferon-gama, necessárias na resposta dos linfócitos e macrófagos aos antígenos do enxerto. Também agem suprimindo a fixação de anticorpos e do complemento e estimulando a migração das células T do intravascular para o tecido linfoide. (15)
Cabe ressaltar que a redução das doses desses medicamentos não deve ser repentina ou rápida, a fim de não aumentar a incidência de rejeição, muito comum com essa prática nos primeiros meses póstransplante.
Embora o esquema de uso dos corticosteroides seja variável nos diferentes centros transplantadores (doses e tempo de utilização), esses agentes permanecem tendo grande importância no arsenal terapêutico pós-transplante. Geralmente, esses medicamentos são utilizados em associação com os inibidores da calcineurina, desde a terapia de indução até o período de manutenção.
INIBIDORES DA CALCINEURINA (CICLOSPORINA E TACROLIMO)
A utilização desses agentes reduziu dramaticamente a freqüência de rejeição e a perda do enxerto no transplante hepático.
Como já relatado anteriormente, atualmente, são os principais medicamentos utilizados como manutenção no transplante hepático. Ciclosporina e tacrolimo são inibidores da calcineurina que se ligam a imunofilinas específicas (ciclofilina e FKBP-12 respectivamente) formando complexos imunofilina-fármaco, inibindo a atividade fosfatásica da calcineurina, impedindo a defosforilação do fator nuclear da célula T ativada. O resultado final é a inibição do gene de transcrição da interleucina-2 e da ativação e proliferação das células T.(9,12)
A ciclosporina é absorvida no jejuno e amplamente distribuída pelo sangue com pico de concentração no plasma sendo atingido cerca de 3,5 horas após sua administração. No sangue, concentra-se no plasma (33%-47%), nos eritrócitos (41%-58%), nos leucócitos (5%-12%), nos linfócitos (4%-9%). No plasma, aproximadamente 90% está ligada a proteínas, principalmente lipoproteínas, tendo uma meia-vida de cerca de 18 horas e eliminação predominantemente biliar, apenas 6% sendo excretada na urina.(15)
O tacrolimo é aproximadamente 100 vezes mais potente que a ciclosporina. (16) Sua biodisponibilidade oral é variável (5%-67%) sendo que a melhor absorção ocorre em condições de jejum. Alimentos ricos em gordura ou carboidratos diminuem significativamente a absorção do fármaco. Cerca de 99% liga-se a proteínas, principalmente albumina e ácido glicoproteína alfa-1, tendo uma meia-vida entre 31,9 e 48,1 horas. Menos de 1% é excretado inalterado na urina. (15)
Os efeitos imunossupressores desses agentes estão relacionados com sua dose total de exposição que podem ser estimados pelo nível sanguíneo no vale (12 horas após a exposição ao fármaco). (17)
Já foi demonstrado que a monitorização do nível sanguíneo da ciclosporina 2 horas após a administração (C2) é mais adequada e diminui a incidência de rejeição, em relação ao nível coletado no vale (C0). (18) No caso do tacrolimo, a monitorização do nível sérico recomendada é no vale. Tanto a ciclosporina como o tacrolimo são metabolizados principalmente pelo sistema citocromo P450, podendo apresentar interações com vários medicamentos devendo ser monitorizado o nível sanguíneo dos imunossupressores quando do uso concomitantes dos seguintes fármacos (17):
Fármacos que aumentam os níveis sanguíneos:
- Macrolídeos: claritromicina, eritromicina, azitromicina
- Antifúngicos: fluconazol, itraconazol, cetoconazol, voriconazol, clotrimazol
- Bloqueadores do canal de cálcio: verapamil, diltiazem, nifedipina
- Outras: cisaprida, metoclopramida, amiodarona, cimetidina, inibidores de protease Fármacos que reduzem os níveis sanguíneos:
- Antibióticos: rifambutina, rifampicina
- Anticonvulsivantes: carbamazepina, fenobarbital, fenitoína Em meta-análise realizada com os estudos comparativos entre ciclosporina e tacrolimo na imunossupressão no transplante hepático, identificaram-se 16 ensaios clínicos prospectivos, randomizados e controlados que incluíram 3813 pacientes. O tacrolimo foi utilizado em associação com corticoesteroides em todos os estudos enquanto que a ciclosporina foi utilizada com corticoesteroides em 12 estudos e com esteroides mais azatioprina em outros 4 estudos. Os resultados desta meta-análise demonstraram que o tacrolimo, em relação à ciclosporina, diminui significativamente o risco de morte (RR 0,85; IC 95% 0,73-0,99), perda do enxerto (RR 0,73; IC 95% 0,61-0,86), rejeição aguda (RR 0,81; IC 95% 0,75-0,88), rejeição aguda resistente a corticoides (0,54; IC 95% 0,47-0,74), além de interrupção do tratamento (RR 0,57; IC 95% 0,49-0,66), em toda a população analisada e no subgrupo de pacientes transplantados por cirrose secundária ao vírus da hepatite C (VHC). A creatinina sérica, a necessidade de diálise e a incidência de doença linfoproliferativa após 1 ano do transplante foram semelhantes com ambos os tratamentos. Já a incidência de diabetes de novo, com necessidade de tratamento com insulina, foi significativamente maior nos pacientes tratados com tacrolimo (RR 1,38; IC 95% 1,01-1,86). (19) Outros estudos demonstraram que a ciclosporina e o tacrolimo são semelhantes em relação a evolução pós-transplante de pacientes com VHC (20-22) e em receptores
de órgãos de doadores vivos.(23)
INIBIDORES DA SÍNTESE DE PURINAS (MICOFENOLATO DE MOFETILA, MICOFENOLATO DE SÓDIO E AZATIOPRINA)
O micofenolato de mofetila (MMF) é um antibiótico com propriedades imunossupressoras, convertido no organismo para a sua forma ativa, o ácido micofenólico (MPA), isolado a partir do cultivo de Penicillium. O mecanismo de ação é semelhante ao da azatioprina, atua inibindo seletivamente a síntese de purinas e, portanto, é um potente inibidor específico da proliferação das células T e B.
O MMF é um pró-fármaco semi-sintético, o éster morfolinoetil do ácido micofenólico. Quando o fármaco é hidrolizado, ocorre a transformação na sua forma ativa (MPA) que, após a absorção, é metabolizado no fígado para a sua forma inativa. A enzima betaglicuroniltransferase é a responsável pela regeneração da forma ativa (MPA) que inibe a inosina-desidrogenase monofosfatase (IMPDH) que atua na biosíntese de novo do nucleotídeo guanina e na síntese de DNA. A inibição da via IMPDH resulta no bloqueio seletivo da proliferação de linfócitos. (24) Já foi descrita concentração elevada de beta- glicuroniltransferase em células ativadas T, B e macrófagos, podendo ser a razão da maior sensibilidade dessas células à ação do medicamento.(25) No sangue circula ligado a proteínas em cerca de 90%, mas a concentração ativa do medicamento é a porção não ligada às proteínas. É eliminado pela via biliar, seguida por desconjugação intestinal pelas bactérias e posteriormente reabsorvido, constituindo um ciclo êntero-hepático. Em torno de 90% da dose oral do medicamento é eliminada pela urina como glicuronídeo do ácido micofenólico.
A dose deverá ser reduzida no caso de filtração glomerular < 25 mL/min. (26)
O micofenolato de sódio (MS) é a formulação desenvolvida com a finalidade de reduzir os eventos adversos relacionados ao fármaco, sobretudo os gastrointestinais. Estudos que compararam as duas formulações mostram equivalência em termos de eficiência.(27,28)
Há vários estudos que apontam o valor do MMF nos pacientes com graus variados de disfunção renal permitindo reduzir, ou mesmo suspender, os inibidores da calcineurina.(29-31) Outra indicação importante é a terapia de resgate de rejeição córtico-resistente e refratária. Gradativamente o MMF está se tornando medicamento de primeira linha nos protocolos de imunossupressão associado aos inibidores da calcineurina e aos corticoesteroides. (29) A adição de
MMF além de reduzir as taxas de rejeição, diminuir os efeitos adversos relacionados aos inibidores de calcineurina, possibilita uma melhor sobrevida até mesmo nos pacientes transplantados com VHC.(32,33)
A azatioprina, um derivado imidazol da 6-mercaptopurina, foi desenvolvida no final dos anos 50 e foi muito utilizada durante as décadas de 60, 70 e 80, quando a ciclosporina tornou-se disponível.
Age pela inibição da síntese dos ácidos nucléicos reduzindo a diferenciação e proliferação dos linfócitos T e B. Agindo na fase S do ciclo celular inibe as respostas primárias mediadas tanto pela imunidade celular quanto humoral. É um potente inibidor mitótico, convertida em 6-mercaptopurina dentro das células, pelo bloqueio da produção de adenosina monofosfato (AMP) e guanina monofosfato (GMP) impedindo, assim, a proliferação celular. É bem absorvida pelo trato gastrointestinal após a administração oral. Tem uma meia vida reduzida (cerca de 3 horas), mas os seus metabólitos permanecem ativos por longo tempo permitindo que o fármaco seja administrado cada 12 - 24 horas.
A azatioprina pode ser utilizada para complementar o efeito do esquema da associação corticoesteroide e inibidores da calcineurina ou como alternativa ao MMF/MS que previne rejeição aguda de forma mais eficaz nos primeiros meses pós-transplante. (34) A mielossupressão, dose dependente, permanece o efeito tóxico mais grave.
Entre os principais fármacos que interagem com a azatioprina, devem ser citados o alopurinol (que inibindo a xantina oxidase aumenta o risco de mielotoxicidade) e os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA), entre outros. Em virtude dos efeitos adversos da azatioprina (mielossupressão), o seu uso vem sendo, gradativamente, substituído pelos derivados do ácido micofenólico.
7.1 - TRATAMENTO DE INDUÇÃO OU INICIAL
A terapia dupla com corticoesteroides e inibidores da calcineurina é considerada o tratamento padrão inicial no transplante hepático, com incidência de rejeição de 35%-50% e sobrevida dos pacientes de 80%-90% em 1 ano pós-transplante.(35) No entanto, os efeitos secundários de imunossupressão exagerada (infecções oportunistas e neoplasias de novo), a gravidade da recidiva de doenças virais como hepatite B e hepatite C e os efeitos adversos a mais longo prazo (nefrotoxicidade, hipertensão arterial, diabetes melito, dislipidemia, osteoporose), determinam uma elevada morbidade e são causa frequente de mortalidade. (35,36)
7.1.1 - CORTICOESTEROIDES
O esquema de uso dos corticosteroides varia muito nos diferentes programas de transplante. Um dos fatores a considerar é a indicação do transplante. Nos casos de infecções virais em atividade (hepatite C, por exemplo) está indicada a redução da dose o mais precocemente possível. Já nos casos de doença autoimune, essa redução deve ser mais lenta. De uma maneira geral inicia-se, por ocasião da cirurgia, com uma formulação endovenosa de metilprednisolona (500-1.000 mg), sendo a dose reduzida diária e progressivamente.
Não há consenso sobre a estratégia dessa redução. Recomenda-se a substituição por prednisona via oral, entre o 5° e o 6° dia pós-transplante na dose de 20 mg/dia, conforme preconizado no item esquema de administração.
7.1.2 - INIBIDORES DA CALCINEURINA
A escolha entre ciclosporina e tacrolimo deve levar em consideração alguns aspectos. Em pacientes diabéticos, sugere-se a escolha pela ciclosporina por ser um medicamento menos diabetogênico.
Nos casos de hipertensão e dislipidemia, aconselha-se o uso do tacrolimo pela menor ocorrência destas complicações pós-transplante.
CICLOSPORINA: a propriedade lipofílica da ciclosporina determina que o medicamento quando administrado endovenoso não seja utilizado em material plástico e sim vidro, para não aderir às paredes. A solução oral, pouco palatável, deve ser diluída, de preferência, com suco de laranja ou maçã; também pode ser usado refrigerantes ou outras bebidas, de acordo com o gosto individual.
Deve-se evitar a diluição em suco de grapefruit (toranja) e de uva, pois esse determinar aumento nos níveis da ciclosporina.
A dose inicial é administrada endovenosa em infusão contínua que, logo após, deve ser convertida em via oral. A dose depende da eventual combinação com outros medicamentos. Na impossibilidade da administração pela via oral, pode ser administrada endovenosa sendo a dose preconizada de 1/3 da dose calculada para via oral. A dose inicial via oral preconizada é de 10 - 15 mg/Kg/dia dividido em 2 administrações diárias, sendo posteriormente ajustada de acordo com o nível sanguíneo do fármaco, conforme o QUADRO 1.
TACROLIMO: a dose inicial é de 0,10 - 0,30 mg/kg/dia dividida em 2 administrações diárias, por sonda nasogástrica, começando 6 -12 horas após a cirurgia passando para via oral tão logo possível. A dose de manutenção deverá ser ajustada de acordo com o nível sanguíneo do fármaco, conforme O QUADRO 2. A administração deve ser feita 1 horas antes ou 2 horas após a alimentação para evitar alteração da absorção.
7.1.3 - INIBIDORES DA SÍNTESE DE PURINAS
ÁCIDO MICOFENÓLICO (MICOFENOLATO DE MOFETILA E DE SÓDIO)
A associação de fármacos desse grupo, à terapia padrão de imunossupressão, tem com o objetivo permitir a redução das doses dos outros imunossupressores, principalmente dos inibidores da calcineurina, com o intuito de diminuir os efeitos adversos desses medicamentos, sem aumentar a incidência de rejeição. Seu uso está indicado em situações de risco aumentado de complicações com o uso dos inibidores da calcineurina como, por exemplo, na disfunção renal.
MICOFENOLATO DE MOFETILA: a dose inicial recomendada para adultos é de 500 mg a 1 g, duas vezes ao dia, via oral.
Após a administração oral é rapidamente absorvido. Não deve ser dado próximo às refeições pela possibilidade de ter reduzida a sua concentração, recomendando-se oferecer 1 hora antes ou 2 horas após as refeições.
MICOFENOLATO DE SÓDIO: a dose inicial recomendada para adultos é de 360 a 720 mg, duas vezes ao dia, via oral. Como alguns dos efeitos adversos do fármaco são alterações hematológicas, deve-se monitorizar periodicamente o hemograma para eventuais ajustes na dose.
AZATIOPRINA: pode ser utilizada no transplante hepático, como alternativa ao micofenolato, com os mesmos objetivos, utilizada em associação aos inibidores da calcineurina. A dose inicial é 1-2 mg/kg/dia em uma única tomada diária, via oral.
Imprensa Nacional BRASÍLIA - DF
DOU de 14/12/2011 – seção 1
Ministério da Saúde
Secretaria de Atenção à Saúde
CONSULTA PÚBLICA No- 8, DE 12 DE DEZEMBRO DE 2011
O Secretário de Atenção à Saúde torna pública, nos termos do Art. 34, inciso II, c/c Art. 59 do Decreto No- 4.176, de 28 de março de 2002, minuta de Portaria que aprova, na forma do Anexo, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuitcas - Imunossupressão no Transplante Hepático em Adulto.
O texto em apreço encontra-se disponível, também, no seguinte endereço eletrônico: www.saude.gov.br/sas. A relevância da matéria recomenda a sua ampla divulgação, a fim de que todos possam contribuir para o seu aperfeiçoamento.
As contribuições deverão estar fundamentadas em estudos clínicos de fase III realizados no Brasil ou no Exterior e meta-análises de ensaios clínicos, e ser enviadas, exclusivamente, para o seguinte endereço eletrônico pcdt.consulta2011@saude.gov.br, especificandose o número da Consulta Pública e o nome do Protocolo no título da mensagem. Os arquivos dos textos das fontes bibliográficas devem também enviados como anexos.
O Departamento de Atenção Especializada da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (DAE/SAS/MS) avaliará as proposições recebidas, elaborando a versão final consolidada do Protocolo ora apresentado.
Fica estabelecido o prazo de 40 (quarenta) dias, a contar da data de publicação desta Consulta Pública, para que sejam enviadas contribuições, devidamente fundamentadas, relativas ao citado Protocolo, para sua posterior aprovação, publicação e entrada em vigor em todo o território nacional.
HELVÉCIO MIRANDA MAGALHÃES JÚNIOR
ANEXO
PORTARIA No- XXXXX, DE 2011
O Secretário de Atenção à Saúde, no uso das atribuições,
Considerando a necessidade de se estabelecer parâmetros sobre a imunossupressão no transplante hepático em adulto no Brasil e de diretrizes nacionais para diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos indivíduos sob imunossupressão;
Considerando que os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) são resultado de consenso técnico-científico e são formulados dentro de rigorosos parâmetros de qualidade e precisão de indicação e posologia;
Considerando as sugestões dadas à Consulta Pública SAS/MS No- 8, de 12 de dezembro de 2011.
Considerando a avaliação do Departamento de Assistência Farmacêutica - DAF/SCTIE e do Departamento de Atenção Especializada - DAE/SAS, resolve:
Art. 1º - Aprovar, na forma do Anexo desta Portaria, o PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS – IMUNOSSUPRESSÃO NO TRANSPLANTE HEPÁTICO EM ADULTO.
§ 1º - O Protocolo objeto deste Artigo, que contêm o conceito geral da imunossupressão no transplante hepático em adulto, critérios de diagnóstico da rejeição, critérios de inclusão e de exclusão, tratamento e mecanismos de regulação, controle e avaliação, é de caráter nacional e deve ser utilizado pelas Secretarias de Saúde dos Estados e dos Municípios na regulação do acesso assistencial, autorização, registro e ressarcimento dos procedimentos correspondentes.
§ 2º - É obrigatória a observância desse Protocolo para fins de dispensação de medicamento nele previsto.
§ 3º - É obrigatória a cientificação do paciente, ou de seu responsável legal, dos potenciais riscos e efeitos colaterais relacionados ao uso de medicamento preconizado para o tratamento da imunossupressão no transplante hepático em adulto, o que deverá ser formalizado por meio da assinatura do respectivo Termo de Esclarecimento e Responsabilidade, conforme o modelo integrante do Protocolo.
§ 4º - Os gestores estaduais e municipais do SUS, conforme a sua competência e pactuações, deverão estruturar a rede assistencial, definir os serviços referenciais e estabelecer os fluxos para o atendimento dos indivíduos submetidos a transplante hepático em todas as etapas descritas no Anexo desta Portaria.
Art. 2º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.
HELVÉCIO MIRANDA MAGALHÃES JÚNIOR
ANEXO
PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS IMUNOSSUPRESSÃO NO TRANSPLANTE HEPÁTICO EM ADULTO
1 - METODOLOGIA DE BUSCA DA LITERATURA BUSCA NA BASE DE DADOS MEDLINE/PUBMED (acesso em 06/07/2011):
Utilizando-se os termos "Liver Transplantation"[Mesh] AND ("Drug Therapy"[Mesh] OR "Immunosuppression"[Mesh]), restringindo-se para estudos em humanos e adultos (maiores de 18 anos), utilizando-se os filtros "Meta-Analysis" e "Randomized Controlled Trial", obteve-se 192 estudos.
BUSCA NA BASE DE DADOS EMBASE (acesso em 06/07/2011):
Utilizando-se os termos 'liver transplantation'/exp AND 'drug therapy'/exp, restringindo-se para estudos em humanos, utilizando-se os filtros ([cochrane review]/lim OR [meta analysis]/lim OR [randomized controlled trial]/lim OR [systematic review]/lim), obteve-se 411 estudos. Destes, 70 estavam relacionados ao uso de imunossupressores no transplante hepático em adultos.
BUSCA NA BASE DE DADOS COCHRANE (acesso em 06/07/2011):
Utilizando-se o termo "liver transplantation", foi localizado uma revisão sistemática sobre o uso de imunossupressores no transplante hepático em adultos, na base de dados da Cochrane.
Foram preferencialmente incluídos como referências estudos randomizados e controlados. Considerou-se, da mesma forma, a metodologia e o número de pacientes envolvidos na pesquisa para a seleção dos estudos utilizados neste protocolo. Apesar de terem sido consultados, não foram incluídos, no texto final, os artigos em que a amostra fazia referência apenas a pacientes pediátricos (até 18 anos) e cujo foco principal era o tratamento de infecções pré- e pós-transplante.
Além disso, foram incluídos na revisão outros artigos e livros textos de gastroenterologia, hepatologia e transplante hepático.
2 - INTRODUÇÃO
O transplante de fígado foi o mais importante avanço no tratamento da doença hepática crônica terminal das últimas décadas.(1)
Atualmente, é considerado tratamento definitivo para pacientes com doença hepática terminal.(2-4) Além da cirrose avançada, também está indicado na insuficiência hepática aguda grave, no carcinoma hepatocelular, na síndrome de Budd-Chiari, na colangite esclerosante primária, na polineuropatia amiloidótica familiar, em algumas doenças metabólicas, entre outras. (5)
Nos primeiros anos da era dos transplantes, a rejeição do enxerto era a principal responsável pela maioria das perdas dos enxertos no pós-operatório e pela reduzida sobrevida pós-transplante de fígado. Nos últimos anos, no entanto, devido ao desenvolvimento de imunossupressores mais eficazes, tal complicação tornou-se bem menos frequente, permitindo maior sobrevida do enxerto e, consequentemente, dos pacientes.
Os medicamentos imunossupressores inibem ou reduzem a resposta do sistema imunitário aos aloantígenos do enxerto. O tratamento imunossupressor tem como objetivo prevenir ou reverter a rejeição do enxerto, alterando o menos possível a imunidade não relacionada com o enxerto. É de fundamental importância buscar o equilíbrio entre máxima eficácia em evitar a rejeição com mínima supressão do sistema imune, permitindo assim o controle contra infecções e neoplasias, evitando também a toxicidade direta dos agentes imunossupressores (nefrotoxicidade, hipertensão arterial, diabetes melito, dislipidemia e osteoporose). (6,7)
A rejeição ao enxerto envolve uma grande variedade de células: leucócitos T citotóxicas (CD8+), células T auxiliares (CD4+), macrófagos e plasmócitos. Na grande maioria dos episódios de rejeição, as células T são as principais envolvidas. Forma-se uma cascata de eventos que culmina na expansão clonal de células efetoras e de anticorpos que causam a destruição dos enxertos se a reação não for controlada adequadamente pelos imunossupressores. O processo completo que conduz à ativação do linfócito T requer sinais externos em receptores localizados na membrana das células. Ao iniciar a resposta imune os antígenos presentes no enxerto são captados e processados pelas células que apresentam os antígenos aos receptores das células T. Considera-se como primeiro sinal o reconhecimento das moléculas HLA pelo receptor da célula T. Há, então, a ativação de uma série de proteínas que, por sua vez, ativam vias bioquímicas efetoras. O segundo sinal, importante para a ativação celular completa da célula T, é reconhecido pela co-estimulação de moléculas com seus "encaixes". A coordenação dos sinais intracelulares que ocorrem após a exposição aos antígenos e a união com as moléculas coestimuladoras ainda não está completamente elucidada. Sabe-se que é necessária a ativação produzida por proteínas regulatórias (as citocinas) do tipo intereleucina 2 (IL-2). A interação da IL-2 com seu receptor estimula tanto a divisão celular (a célula T passará da fase G0 do ciclo celular para a fase ativada G1) quanto à expansão clonal das células auxiliares e citotóxicas. O terceiro sinal ocorre quando as citocinas são encaixadas nos seus receptores e passam a emitir os sinais de transdução para o núcleo das células. Esses sinais passam pela proteína conhecida como mTOR (mammalian target of rapamycin) e ativam sistemas enzimáticos importantes para a progressão das células da fase G1 para a fase S da síntese de DNA. O conhecimento dessa cascata de ativação, com a destruição celular cíclica que ela determina, e do sítio de ação dos medicamentos imunossupressores, é fundamental para a correta terapia da rejeição. (6,7)
Rejeição celular aguda pode ocorrer precocemente após o transplante, sendo mais comum nos primeiros meses após o procedimento.
No entanto, rejeição aguda pode surgir meses depois do transplante e até anos mais tarde, em geral quando há mudanças na imunossupressão.
Comparativamente aos transplantes de outros órgãos, a rejeição do enxerto hepático é rara, não sendo necessária a compatibilidade HLA havendo, inclusive, efeito protetor no caso de transplante conjugado com rim e pulmão.(8,9)
Em 2010 foram realizados, no Brasil, 1.413 transplantes de fígado, sendo 1.313 de doadores falecidos e 100 de doadores vivos. (10)
3 - CLASSIFICAÇÃO ESTATÍSTICA INTERNACIONAL DE DOENÇAS E PROBLEMAS RELACIONADOS À SAÚDE (CID-10)
- Z94.4 Fígado transplantado
4 - DIAGNÓSTICO DE REJEIÇÃO
Em pacientes transplantados hepáticos a rejeição pode ser dividida em aguda e crônica. A rejeição aguda é a forma mais comum de rejeição do enxerto sendo, na maior parte das vezes, reversível. Já a rejeição crônica é geralmente irreversível e costuma ser precedida por episódios de rejeição aguda não resolvidos com o tratamento.(11)
4.1 - REJEIÇÃO AGUDA
4.1.1 - DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Pode ocorrer em qualquer período pós-transplante, entretanto é mais comum que ocorra nas primeiras 12 semanas após o procedimento.
Geralmente o quadro costuma ser inespecífico, com desconforto abdominal e diminuição do apetite sendo que muitas vezes os pacientes são assintomáticos. Quando há manifestações clínicas, estas podem incluir icterícia, febre e dor abdominal.(12)
4.1.2 - DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
Nos primeiros dias após o transplante hepático os testes para avaliar a função do órgão costumam estar alterados em decorrência de eventos relacionados à cirurgia propriamente dita (lesões de preservação e reperfusão durante o implante). No entanto, quando há retardo na normalização dos parâmetros laboratoriais, não havendo tempo específico para estipular tal retardo, a possibilidade de rejeição aguda deve ser considerada, pois muitas vezes, a primeira manifestação de rejeição é a manutenção das alterações laboratoriais. Assim, embora não haja consenso em relação à magnitude dessas alterações, geralmente se observa elevação de gamaglutil transferase (GGT), fosfatase alcalina (FA), aminotransferases/transaminases (ALT/TGP e AST/TGO) e das bilirrubinas. Em alguns casos há leucocitose e eosinofilia. As alterações laboratoriais são de grande importância para a suspeita de rejeição, porém não são patognomônicas e devem ser interpretadas em contexto que inclui diferentes fatores (idade do receptor, condições do doador, causa da hepatopatia que motivou o transplante, tempo decorrido do procedimento, entre outros).(12)
4.1.3 - DIAGNÓSTICO HISTOLÓGICO
Alteração funcional hepática e a consequente elevação das enzimas não são específicas para o diagnóstico de rejeição aguda.
Quando outras causas de alteração funcional do enxerto, tais como alterações vasculares e da via biliar tiverem sido descartadas, recomenda-se a realização de biópsia de fígado. Não há consenso em relação à magnitude dessas elevações para indicar a biópsia, devendo ser considerado nesse contexto, entre outros fatores, o tempo decorrido do transplante. Em qualquer período após o transplante o diagnóstico de rejeição é estabelecido pela análise histológica do fígado. A biópsia hepática é o que define o diagnóstico e permite graduar sua intensidade. Suas bases foram definidas em reuniões de consenso conhecidas como "Critérios de Banff".(12) O índice Banff de atividade/intensidade da rejeição divide o processo em 3 graus (leve, moderado e grave). Nos casos de rejeição leve observa-se a presença de discreto infiltrado inflamatório com alterações limitadas a poucos espaços porta. Quando esta é moderada as alterações se estendem para a maioria dos espaços porta, e, no caso da grave, observa-se também inflamação perivenular que se estende ao parênquima e necrose de hepatócitos (12).
4.2 - REJEIÇÃO CRÔNICA
4.2.1 - DIAGNÓSTICO CLÍNICO
Rejeição crônica pode ocorrer em qualquer período após o transplante, contudo é rara nos primeiros 3 meses. Na sua fase inicial pode ser assintomática ou indistinguível da rejeição aguda. O desenvolvimento da rejeição crônica é insidioso e não está associado com sinais e sintomas específicos, sendo necessário um alto grau de suspeição nas fases iniciais. Em geral, há história de pelo menos um episódio anterior de rejeição aguda. Gradativamente os pacientes tornam-se colestáticos e manifestam icterícia e prurido em graus variáveis.(13)
4.2.2 - DIAGNÓSTICO LABORATORIAL
As alterações bioquímicas que ocorrem são fundamentalmente elevação das bilirrubinas e das enzimas hepáticas que caracterizam colestase (GGT e FA) com uma alteração proporcionalmente moderada das aminotransferases. Em fases mais tardias, há progressiva piora da síntese do enxerto hepático, com o prolongamento do tempo de protrombina, redução da albumina sérica e do Fator V. (13)
4.2.3 - DIAGNÓSTICO HISTOPATOLÓGICO
O diagnóstico de rejeição crônica requer a realização de biópsia hepática. Recomenda-se sua realização nos casos em que há elevação sustentada de enzimas hepáticas, não havendo regra de tempo para tal elevação sustentada, após ter sido afastado outras causas para tais alterações (doenças da via biliar, por exemplo). Não há consenso em relação à magnitude dessas elevações para indicar a biópsia. O achado mais característico de rejeição crônica é a ductopenia, revelada pela ausência de ductos biliares em, pelo menos, 50% dos espaços-porta. Cabe aqui ressaltar que as alterações histológicas clássicas podem não estar presentes precocemente.(14)
5 - CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Serão incluídos neste protocolo todos os pacientes adultos (maiores de 18 anos) submetidos ao transplante hepático, conforme o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes vigente.
6 - CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Intolerância, hipersensibilidade ou contra indicação serão os critérios de exclusão ao uso do respectivo medicamento preconizado neste Protocolo.
7 - TRATAMENTO
Os agentes imunossupressores inibem ou diminuem a resposta do sistema imunológico aos aloantígenos do enxerto. Os diversos medicamentos e agentes biológicos utilizados na imunossupressão do paciente transplantado de fígado se classificam em grupos, de acordo com seus sítios de atuação na cascata das células T: 1) os que atuam em vários níveis da cascata (corticoesteroides): PREDNISONA, PREDNISOLONA E METILPREDNISOLONA; 2) os que inibem a síntese de interleucina-2 (inibidores da calcineurina): CICLOSPORINA E TACROLIMO; 3) os que interferem na síntese de ácidos nucléicos (inibidores da síntese de purinas): AZATIOPRINA E MICOFENOLATO. (6,7)
A escolha do esquema imunossupressor a ser utilizado deve levar em consideração aspectos relacionados ao receptor (comorbidades, doença hepática que levou ao transplante, etc.). A maioria dos esquemas imunossupressores combina agentes com diferentes sítios de ação na cascata da resposta imunológica, permitindo ajuste nas doses e reduzindo assim os efeitos adversos e a toxicidade desses medicamentos. Como há efeito sinérgico entre alguns desses agentes, é possível utilizar, em distintas combinações, medicamentos que atuem em diferentes fases do ciclo celular, com a intenção de atingir um nível adequado de imunossupressão, com menos efeitos adversos.
O termo TERAPIA DE INDUÇÃO OU INICIAL refere-se ao tratamento imunossupressor utilizado no período trans-operatório e durante os três primeiros meses pós-transplante, período em que o risco de rejeição do enxerto é maior. O termo TERAPIA DE MANUTENÇÃO refere-se ao esquema imunossupressor utilizado posteriormente a este período. Atualmente, na grande maioria dos casos são utilizados esquemas imunossupressores tendo como base os inibidores da calcineurina.
CORTICOESTEROIDES (PREDNISONA E METILPREDNISOLONA)
Os corticoesteroides são os imunossupressores mais amplamente utilizados no transplante hepático excetuando os inibidores da calcineurina. Esses agentes são utilizados desde o início da era do transplante hepático e ainda hoje fazem parte da primeira linha de tratamento da rejeição aguda e em pacientes transplantados por hepatite autoimune.
Estes medicamentos atuam principalmente na ativação das células T, inibindo a produção de citocinas, tais como a interleucina-2 e interleucina-6 e interferon-gama, necessárias na resposta dos linfócitos e macrófagos aos antígenos do enxerto. Também agem suprimindo a fixação de anticorpos e do complemento e estimulando a migração das células T do intravascular para o tecido linfoide. (15)
Cabe ressaltar que a redução das doses desses medicamentos não deve ser repentina ou rápida, a fim de não aumentar a incidência de rejeição, muito comum com essa prática nos primeiros meses póstransplante.
Embora o esquema de uso dos corticosteroides seja variável nos diferentes centros transplantadores (doses e tempo de utilização), esses agentes permanecem tendo grande importância no arsenal terapêutico pós-transplante. Geralmente, esses medicamentos são utilizados em associação com os inibidores da calcineurina, desde a terapia de indução até o período de manutenção.
INIBIDORES DA CALCINEURINA (CICLOSPORINA E TACROLIMO)
A utilização desses agentes reduziu dramaticamente a freqüência de rejeição e a perda do enxerto no transplante hepático.
Como já relatado anteriormente, atualmente, são os principais medicamentos utilizados como manutenção no transplante hepático. Ciclosporina e tacrolimo são inibidores da calcineurina que se ligam a imunofilinas específicas (ciclofilina e FKBP-12 respectivamente) formando complexos imunofilina-fármaco, inibindo a atividade fosfatásica da calcineurina, impedindo a defosforilação do fator nuclear da célula T ativada. O resultado final é a inibição do gene de transcrição da interleucina-2 e da ativação e proliferação das células T.(9,12)
A ciclosporina é absorvida no jejuno e amplamente distribuída pelo sangue com pico de concentração no plasma sendo atingido cerca de 3,5 horas após sua administração. No sangue, concentra-se no plasma (33%-47%), nos eritrócitos (41%-58%), nos leucócitos (5%-12%), nos linfócitos (4%-9%). No plasma, aproximadamente 90% está ligada a proteínas, principalmente lipoproteínas, tendo uma meia-vida de cerca de 18 horas e eliminação predominantemente biliar, apenas 6% sendo excretada na urina.(15)
O tacrolimo é aproximadamente 100 vezes mais potente que a ciclosporina. (16) Sua biodisponibilidade oral é variável (5%-67%) sendo que a melhor absorção ocorre em condições de jejum. Alimentos ricos em gordura ou carboidratos diminuem significativamente a absorção do fármaco. Cerca de 99% liga-se a proteínas, principalmente albumina e ácido glicoproteína alfa-1, tendo uma meia-vida entre 31,9 e 48,1 horas. Menos de 1% é excretado inalterado na urina. (15)
Os efeitos imunossupressores desses agentes estão relacionados com sua dose total de exposição que podem ser estimados pelo nível sanguíneo no vale (12 horas após a exposição ao fármaco). (17)
Já foi demonstrado que a monitorização do nível sanguíneo da ciclosporina 2 horas após a administração (C2) é mais adequada e diminui a incidência de rejeição, em relação ao nível coletado no vale (C0). (18) No caso do tacrolimo, a monitorização do nível sérico recomendada é no vale. Tanto a ciclosporina como o tacrolimo são metabolizados principalmente pelo sistema citocromo P450, podendo apresentar interações com vários medicamentos devendo ser monitorizado o nível sanguíneo dos imunossupressores quando do uso concomitantes dos seguintes fármacos (17):
Fármacos que aumentam os níveis sanguíneos:
- Macrolídeos: claritromicina, eritromicina, azitromicina
- Antifúngicos: fluconazol, itraconazol, cetoconazol, voriconazol, clotrimazol
- Bloqueadores do canal de cálcio: verapamil, diltiazem, nifedipina
- Outras: cisaprida, metoclopramida, amiodarona, cimetidina, inibidores de protease Fármacos que reduzem os níveis sanguíneos:
- Antibióticos: rifambutina, rifampicina
- Anticonvulsivantes: carbamazepina, fenobarbital, fenitoína Em meta-análise realizada com os estudos comparativos entre ciclosporina e tacrolimo na imunossupressão no transplante hepático, identificaram-se 16 ensaios clínicos prospectivos, randomizados e controlados que incluíram 3813 pacientes. O tacrolimo foi utilizado em associação com corticoesteroides em todos os estudos enquanto que a ciclosporina foi utilizada com corticoesteroides em 12 estudos e com esteroides mais azatioprina em outros 4 estudos. Os resultados desta meta-análise demonstraram que o tacrolimo, em relação à ciclosporina, diminui significativamente o risco de morte (RR 0,85; IC 95% 0,73-0,99), perda do enxerto (RR 0,73; IC 95% 0,61-0,86), rejeição aguda (RR 0,81; IC 95% 0,75-0,88), rejeição aguda resistente a corticoides (0,54; IC 95% 0,47-0,74), além de interrupção do tratamento (RR 0,57; IC 95% 0,49-0,66), em toda a população analisada e no subgrupo de pacientes transplantados por cirrose secundária ao vírus da hepatite C (VHC). A creatinina sérica, a necessidade de diálise e a incidência de doença linfoproliferativa após 1 ano do transplante foram semelhantes com ambos os tratamentos. Já a incidência de diabetes de novo, com necessidade de tratamento com insulina, foi significativamente maior nos pacientes tratados com tacrolimo (RR 1,38; IC 95% 1,01-1,86). (19) Outros estudos demonstraram que a ciclosporina e o tacrolimo são semelhantes em relação a evolução pós-transplante de pacientes com VHC (20-22) e em receptores
de órgãos de doadores vivos.(23)
INIBIDORES DA SÍNTESE DE PURINAS (MICOFENOLATO DE MOFETILA, MICOFENOLATO DE SÓDIO E AZATIOPRINA)
O micofenolato de mofetila (MMF) é um antibiótico com propriedades imunossupressoras, convertido no organismo para a sua forma ativa, o ácido micofenólico (MPA), isolado a partir do cultivo de Penicillium. O mecanismo de ação é semelhante ao da azatioprina, atua inibindo seletivamente a síntese de purinas e, portanto, é um potente inibidor específico da proliferação das células T e B.
O MMF é um pró-fármaco semi-sintético, o éster morfolinoetil do ácido micofenólico. Quando o fármaco é hidrolizado, ocorre a transformação na sua forma ativa (MPA) que, após a absorção, é metabolizado no fígado para a sua forma inativa. A enzima betaglicuroniltransferase é a responsável pela regeneração da forma ativa (MPA) que inibe a inosina-desidrogenase monofosfatase (IMPDH) que atua na biosíntese de novo do nucleotídeo guanina e na síntese de DNA. A inibição da via IMPDH resulta no bloqueio seletivo da proliferação de linfócitos. (24) Já foi descrita concentração elevada de beta- glicuroniltransferase em células ativadas T, B e macrófagos, podendo ser a razão da maior sensibilidade dessas células à ação do medicamento.(25) No sangue circula ligado a proteínas em cerca de 90%, mas a concentração ativa do medicamento é a porção não ligada às proteínas. É eliminado pela via biliar, seguida por desconjugação intestinal pelas bactérias e posteriormente reabsorvido, constituindo um ciclo êntero-hepático. Em torno de 90% da dose oral do medicamento é eliminada pela urina como glicuronídeo do ácido micofenólico.
A dose deverá ser reduzida no caso de filtração glomerular < 25 mL/min. (26)
O micofenolato de sódio (MS) é a formulação desenvolvida com a finalidade de reduzir os eventos adversos relacionados ao fármaco, sobretudo os gastrointestinais. Estudos que compararam as duas formulações mostram equivalência em termos de eficiência.(27,28)
Há vários estudos que apontam o valor do MMF nos pacientes com graus variados de disfunção renal permitindo reduzir, ou mesmo suspender, os inibidores da calcineurina.(29-31) Outra indicação importante é a terapia de resgate de rejeição córtico-resistente e refratária. Gradativamente o MMF está se tornando medicamento de primeira linha nos protocolos de imunossupressão associado aos inibidores da calcineurina e aos corticoesteroides. (29) A adição de
MMF além de reduzir as taxas de rejeição, diminuir os efeitos adversos relacionados aos inibidores de calcineurina, possibilita uma melhor sobrevida até mesmo nos pacientes transplantados com VHC.(32,33)
A azatioprina, um derivado imidazol da 6-mercaptopurina, foi desenvolvida no final dos anos 50 e foi muito utilizada durante as décadas de 60, 70 e 80, quando a ciclosporina tornou-se disponível.
Age pela inibição da síntese dos ácidos nucléicos reduzindo a diferenciação e proliferação dos linfócitos T e B. Agindo na fase S do ciclo celular inibe as respostas primárias mediadas tanto pela imunidade celular quanto humoral. É um potente inibidor mitótico, convertida em 6-mercaptopurina dentro das células, pelo bloqueio da produção de adenosina monofosfato (AMP) e guanina monofosfato (GMP) impedindo, assim, a proliferação celular. É bem absorvida pelo trato gastrointestinal após a administração oral. Tem uma meia vida reduzida (cerca de 3 horas), mas os seus metabólitos permanecem ativos por longo tempo permitindo que o fármaco seja administrado cada 12 - 24 horas.
A azatioprina pode ser utilizada para complementar o efeito do esquema da associação corticoesteroide e inibidores da calcineurina ou como alternativa ao MMF/MS que previne rejeição aguda de forma mais eficaz nos primeiros meses pós-transplante. (34) A mielossupressão, dose dependente, permanece o efeito tóxico mais grave.
Entre os principais fármacos que interagem com a azatioprina, devem ser citados o alopurinol (que inibindo a xantina oxidase aumenta o risco de mielotoxicidade) e os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA), entre outros. Em virtude dos efeitos adversos da azatioprina (mielossupressão), o seu uso vem sendo, gradativamente, substituído pelos derivados do ácido micofenólico.
7.1 - TRATAMENTO DE INDUÇÃO OU INICIAL
A terapia dupla com corticoesteroides e inibidores da calcineurina é considerada o tratamento padrão inicial no transplante hepático, com incidência de rejeição de 35%-50% e sobrevida dos pacientes de 80%-90% em 1 ano pós-transplante.(35) No entanto, os efeitos secundários de imunossupressão exagerada (infecções oportunistas e neoplasias de novo), a gravidade da recidiva de doenças virais como hepatite B e hepatite C e os efeitos adversos a mais longo prazo (nefrotoxicidade, hipertensão arterial, diabetes melito, dislipidemia, osteoporose), determinam uma elevada morbidade e são causa frequente de mortalidade. (35,36)
7.1.1 - CORTICOESTEROIDES
O esquema de uso dos corticosteroides varia muito nos diferentes programas de transplante. Um dos fatores a considerar é a indicação do transplante. Nos casos de infecções virais em atividade (hepatite C, por exemplo) está indicada a redução da dose o mais precocemente possível. Já nos casos de doença autoimune, essa redução deve ser mais lenta. De uma maneira geral inicia-se, por ocasião da cirurgia, com uma formulação endovenosa de metilprednisolona (500-1.000 mg), sendo a dose reduzida diária e progressivamente.
Não há consenso sobre a estratégia dessa redução. Recomenda-se a substituição por prednisona via oral, entre o 5° e o 6° dia pós-transplante na dose de 20 mg/dia, conforme preconizado no item esquema de administração.
7.1.2 - INIBIDORES DA CALCINEURINA
A escolha entre ciclosporina e tacrolimo deve levar em consideração alguns aspectos. Em pacientes diabéticos, sugere-se a escolha pela ciclosporina por ser um medicamento menos diabetogênico.
Nos casos de hipertensão e dislipidemia, aconselha-se o uso do tacrolimo pela menor ocorrência destas complicações pós-transplante.
CICLOSPORINA: a propriedade lipofílica da ciclosporina determina que o medicamento quando administrado endovenoso não seja utilizado em material plástico e sim vidro, para não aderir às paredes. A solução oral, pouco palatável, deve ser diluída, de preferência, com suco de laranja ou maçã; também pode ser usado refrigerantes ou outras bebidas, de acordo com o gosto individual.
Deve-se evitar a diluição em suco de grapefruit (toranja) e de uva, pois esse determinar aumento nos níveis da ciclosporina.
A dose inicial é administrada endovenosa em infusão contínua que, logo após, deve ser convertida em via oral. A dose depende da eventual combinação com outros medicamentos. Na impossibilidade da administração pela via oral, pode ser administrada endovenosa sendo a dose preconizada de 1/3 da dose calculada para via oral. A dose inicial via oral preconizada é de 10 - 15 mg/Kg/dia dividido em 2 administrações diárias, sendo posteriormente ajustada de acordo com o nível sanguíneo do fármaco, conforme o QUADRO 1.
TACROLIMO: a dose inicial é de 0,10 - 0,30 mg/kg/dia dividida em 2 administrações diárias, por sonda nasogástrica, começando 6 -12 horas após a cirurgia passando para via oral tão logo possível. A dose de manutenção deverá ser ajustada de acordo com o nível sanguíneo do fármaco, conforme O QUADRO 2. A administração deve ser feita 1 horas antes ou 2 horas após a alimentação para evitar alteração da absorção.
7.1.3 - INIBIDORES DA SÍNTESE DE PURINAS
ÁCIDO MICOFENÓLICO (MICOFENOLATO DE MOFETILA E DE SÓDIO)
A associação de fármacos desse grupo, à terapia padrão de imunossupressão, tem com o objetivo permitir a redução das doses dos outros imunossupressores, principalmente dos inibidores da calcineurina, com o intuito de diminuir os efeitos adversos desses medicamentos, sem aumentar a incidência de rejeição. Seu uso está indicado em situações de risco aumentado de complicações com o uso dos inibidores da calcineurina como, por exemplo, na disfunção renal.
MICOFENOLATO DE MOFETILA: a dose inicial recomendada para adultos é de 500 mg a 1 g, duas vezes ao dia, via oral.
Após a administração oral é rapidamente absorvido. Não deve ser dado próximo às refeições pela possibilidade de ter reduzida a sua concentração, recomendando-se oferecer 1 hora antes ou 2 horas após as refeições.
MICOFENOLATO DE SÓDIO: a dose inicial recomendada para adultos é de 360 a 720 mg, duas vezes ao dia, via oral. Como alguns dos efeitos adversos do fármaco são alterações hematológicas, deve-se monitorizar periodicamente o hemograma para eventuais ajustes na dose.
AZATIOPRINA: pode ser utilizada no transplante hepático, como alternativa ao micofenolato, com os mesmos objetivos, utilizada em associação aos inibidores da calcineurina. A dose inicial é 1-2 mg/kg/dia em uma única tomada diária, via oral.